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Quinta-feira, 13 de Agosto de 2026
A Falta de incentivo, enchente e o Carnaval

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A Falta de incentivo, enchente e o Carnaval

A luta para reconstruir e manter o Carnaval em Canoas

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Um ponto crucial e que, infelizmente, é uma camada profunda e dolorosa da falta de incentivo e do preconceito contra o Carnaval: a discriminação por ser uma manifestação majoritariamente negra.
Historicamente, o Carnaval, especialmente o samba e as escolas de samba, tem suas raízes fincadas nas comunidades afro-brasileiras, nos morros e nas periferias. Ele nasceu e se desenvolveu como uma forma de expressão, resistência e celebração para pessoas que, por muito tempo, foram marginalizadas e perseguidas por suas manifestações culturais.
Vejamos como essa discriminação se manifesta:
O Preconceito Racial no Coração do Carnaval
 * Criminalização e Perseguição Histórica: No início do século XX, e até mesmo antes, o samba e as rodas de capoeira (muitas vezes ligadas aos cordões e blocos embrionários do Carnaval) eram vistos como "coisa de vagabundo", associados à desordem e à criminalidade. A polícia reprimia essas manifestações, prendendo sambistas e frequentadores. Essa perseguição era, em grande parte, motivada pelo racismo estrutural, que desvalorizava e tentava anular as expressões culturais negras.
 * "Embranquecimento" da Festa: Com a popularização do Carnaval, houve um esforço para "embranquecer" a festa e o samba, tornando-os mais aceitáveis para a elite e a sociedade branca. Isso muitas vezes significou apagar ou minimizar as contribuições africanas e afro-brasileiras, padronizando a estética e a narrativa para se encaixar em um ideal de "nacionalidade" mais palatável.
 * Estereótipos e Apropriação Cultural: Mesmo hoje, ainda vemos manifestações de racismo recreativo no Carnaval, como o uso de fantasias que ridicularizam traços negros ou a apropriação de elementos culturais afro-brasileiros sem o devido respeito ou reconhecimento de suas origens e significados.
 * Desigualdade no Apoio e Reconhecimento: A discriminação racial contribui para a falta de apoio e investimento nas escolas de samba e blocos, especialmente aqueles mais ligados às suas raízes comunitárias e negras. Muitas vezes, o financiamento e a visibilidade são direcionados a aspectos do Carnaval que se alinham mais com o consumo de massa, em detrimento da autenticidade e da importância social e identitária das comunidades negras.
 * Censura e Desvalorização de Enredos Afro: Há casos, como o recentemente noticiado em Canoas, (arquivado pelo  MP) de tentativas de veto ou desvalorização de enredos que abordam temas afro-brasileiros, religiões de matriz africana ou a luta do povo negro. Isso é um reflexo direto do preconceito, que tenta silenciar narrativas e vozes que são centrais para a história e a identidade do Carnaval.
A Tragédia Multiplicada em Canoas
O cenário de Canoas, com seu Carnaval que já foi o segundo maior do estado e hoje sofre com a falta de apoio e a destruição das escolas de samba do lado oeste pela enchente de 2024, é ainda mais agravado pela discriminação racial. As escolas, muitas vezes fundadas e mantidas por comunidades negras e periféricas, não só lidam com a escassez de recursos e a perda material, mas também com o preconceito que historicamente as invisibiliza e as marginaliza. A luta para reconstruir e manter o Carnaval em Canoas é, portanto, não apenas uma batalha por recursos e infraestrutura, mas também por reconhecimento, respeito e a reafirmação da identidade afro-brasileira que pulsa no coração da festa.
Em suma, a falta de incentivo à cultura popular é um problema complexo que se aprofunda no Brasil pela discriminação racial, afetando manifestações como o Carnaval em sua essência. A história de perseguição e a luta por reconhecimento, somadas a tragédias como a enchente em Canoas, mostram o quão urgente é valorizar, apoiar e proteger essa expressão cultural, que é um pilar fundamental da nossa identidade e um símbolo de resistência negra.

FONTE/CRÉDITOS: Sidiclei Mancy
Comentários:
Sidiclei Mancy

Publicado por:

Sidiclei Mancy

Ativista dos movimentos sociais, fui Diretor da secretaria de cultura de Canoas, Assessor da Secretaria de justiça cidadania e direitos humanos do RS, Assessor da Secretaria de Habitação e Regularização Fundiária do RS, Diretor da...

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