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Segunda-feira, 04 de Maio de 2026
O Medo Que Volta Com a Chuva

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O Medo Que Volta Com a Chuva

Meu Recomeço, Rostos Conhecidos e o Alerta de Canoas

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O Medo Que Volta Com a Chuva: Meu Recomeço, Rostos Conhecidos e o Alerta de Canoas
Eu senti na pele a força das águas. Em 2024, quando as enchentes históricas devastaram o Rio Grande do Sul, minha vida e a de milhares de canoenses viraram de cabeça para baixo. Vi minha casa ser invadida pela água, perdi o que tinha e, como tantos, precisei deixar minha casa. Mas, em meio ao caos, uma urgência me moveu: a de ajudar. Fui para os abrigos, onde a dor e a solidariedade se misturavam a cada instante. Lá, o que mais me marcou foram os rostos: carinhas conhecidas, amigos, vizinhos, pessoas que eu cruzava no dia a dia do bairro. Seus semblantes, antes familiares na rotina, agora carregavam o peso do desespero e da incerteza. Essa proximidade com a dor dos meus pares tornou a tragédia ainda mais palpável.
Agora, em junho de 2025, com a lembrança vívida daquele pesadelo e a volta das chuvas, a ansiedade e o medo retornam. Canoas respira com a apreensão de quem sabe que a ameaça pode estar novamente à porta. E o que é mais revoltante é que essa história não é nova.
A Cicatriz da Água e a Memória de Rostos Marcados
A imagem da água subindo ainda me persegue. Minha casa, meu espaço, invadido por uma força incontrolável. A saída foi apressada, com a sensação de estar abandonando uma parte de mim. Mas a verdadeira dimensão da catástrofe só me atingiu de cheio nos abrigos. Lá, não eram apenas "vítimas" anônimas; eram meus vizinhos, as pessoas que eu via na padaria, no mercado, buscando seus filhos na escola. Suas expressões de cansaço, de perda, de um futuro incerto eram um espelho da minha própria angústia, mas multiplicada em centenas de olhares. Ali, a solidariedade era uma ponte, um abraço apertado entre quem dividia o mesmo sofrimento.
Voltar para o que restou, limpar a lama, tentar reconstruir, foi e ainda é um processo exaustivo. Cada objeto perdido, cada cômodo que precisou de reparos, é um lembrete constante do que vivemos. E a sensação de que não estamos totalmente seguros permanece.
Um Ciclo Que Se Repete: As Promessas Desfeitas e a Água Que Volta
O que mais dói, e o que me traz de volta a essa reflexão em 2025, é a percepção de que essa calamidade não é um evento isolado. Há anos, Canoas convive com o problema das cheias. Em alguns momentos, a cada dois, três, quatro anos, as chuvas intensas e as ruas alagadas viravam notícia e, invariavelmente, um tema central em períodos eleitorais.
Lembro-me bem das campanhas, dos candidatos prometendo, com veemência, que a situação seria resolvida de uma vez por todas. "Nunca mais as enchentes em Canoas", eles garantiam. E a cada promessa, uma esperança vã. Passado o pleito, a urgência parecia se esvair, e as ações concretas de prevenção – como a melhoria dos diques, a desobstrução de arroios ou a modernização do sistema de drenagem – ficavam em segundo plano.
A enchente de 2024 foi a prova mais dura de que essas promessas foram levadas pelas águas. E agora, com a iminência de novas chuvas em 2025, a sensação é de um déjà-vu amargo. A cidade, ainda fragilizada, com o solo encharcado e a infraestrutura comprometida, enfrenta de novo o risco. Onde estão os planos robustos de longo prazo? As obras que iriam garantir que o "nunca mais" fosse, de fato, uma realidade?
Entre a Esperança e a Angústia: Uma Canoas Em Alerta Contínuo
As autoridades falam em planos de contingência, mas, para quem viveu a tragédia, e já viu o filme se repetir tantas vezes, a sensação é de que sempre podemos ser pegos de surpresa. A comunicação sobre os riscos e os abrigos em potencial precisa ser clara e constante. Precisamos de respostas rápidas e, acima de tudo, de ações concretas para a recuperação da infraestrutura e para a segurança de quem mora em áreas de risco.
A solidariedade que nos uniu em 2024 foi imensa e inspiradora, mas não podemos depender apenas dela. É fundamental que os investimentos em prevenção e em projetos de longo prazo sejam prioridade. A memória dos rostos conhecidos nos abrigos, a imagem da minha casa submersa, e a frustração das promessas quebradas, são lembretes diários de que não podemos baixar a guarda. Canoas vive um recomeço frágil, e a ameaça das chuvas nos mantém em um estado de alerta contínuo. Precisamos de mais do que resiliência; precisamos de segurança e de um futuro onde o medo da água não seja uma constante. Um futuro onde as promessas eleitorais se transformem em obras e planos que realmente protejam a vida das pessoas.

FONTE/CRÉDITOS: SIDICLEI MANCY
FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): Sidiclei Mancy
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Sidiclei Mancy

Publicado por:

Sidiclei Mancy

Ativista dos movimentos sociais, fui Diretor da secretaria de cultura de Canoas, Assessor da Secretaria de justiça cidadania e direitos humanos do RS, Assessor da Secretaria de Habitação e Regularização Fundiária do RS, Diretor da...

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