A ditadura militar foi concreta, violenta e duradoura. Já a ameaça comunista no Brasil, nos anos 60 e 70, foi muito mais um instrumento de propaganda do que um risco real. A verdade histórica precisa prevalecer sobre o revisionismo travestido de alerta patriótico.
Um argumento recorrente e perigoso
Volta e meia reaparece o discurso de que a ditadura militar (1964–1985) foi um “mal menor”, necessário para impedir que o Brasil se transformasse numa versão latino-americana da Coreia do Norte ou de Cuba. É um raciocínio comum entre revisionistas, que, baseados em hipóteses retrospectivas e distorcidas, tentam reabilitar um dos períodos mais sombrios da história do país.
Dizem: “Se os grupos de esquerda armada tivessem vencido, o Brasil hoje seria um regime comunista autoritário”. Mas essa hipótese não resiste à análise histórica séria. É baseada no medo, não nos fatos.
Quem eram os revolucionários?
Nos anos 60 e 70, existiram de fato grupos armados de esquerda, alguns com inspiração marxista-leninista, outros com influências guevaristas, maoístas ou mesmo cristãs. Tinham em comum a oposição radical à ditadura, mas não formavam uma frente unificada nem tinham apoio popular suficiente para uma tomada de poder nacional.
A repressão brutal os destruiu ainda nos seus primeiros passos. Pensar que essas pequenas organizações poderiam dominar um país continental como o Brasil com uma elite econômica consolidada, Forças Armadas articuladas com os EUA e uma sociedade religiosa e conservadora é mais ficção política do que projeção séria.
Ex-militantes arrependidos justificam a ditadura?
Alguns ex-militantes, como Fernando Gabeira ou José Genoíno, revisitaram suas trajetórias e reconheceram erros táticos ou visões excessivamente idealistas. Mas nem por isso endossam o regime militar. Admitir ingenuidade política da juventude não equivale a justificar a tortura ou a censura institucionalizada. Usar essas revisões pessoais para dizer que “até eles concordam que seria uma ditadura comunista” é desonesto e descontextualizado.
O verdadeiro legado do regime militar
É preciso clareza: a ditadura militar foi uma ditadura com todas as letras. Cassou mandatos, fechou o Congresso, criou uma justiça de exceção, proibiu partidos, perseguiu jornalistas, censurou a imprensa, torturou, matou, desapareceu com opositores e usou os aparelhos do Estado contra a própria população.
A Comissão Nacional da Verdade documentou mais de 400 mortos e desaparecidos políticos, além de milhares de pessoas submetidas a prisões arbitrárias, exílio forçado e violência física e psicológica. Esses não são "excessos", são crimes de Estado.
Liberdades "preservadas"? Só para alguns
Há quem diga que o regime “manteve” algumas liberdades religiosa, de propriedade, eleições, imprensa. Isso é apenas meia verdade:
As eleições eram indiretas e controladas.
A imprensa era censurada e vigiada.
A liberdade religiosa era tolerada desde que silenciosa.
O direito à propriedade não se estendia a camponeses, quilombolas ou indígenas.
O sistema partidário foi limitado a uma farsa entre dois blocos: situação (ARENA) e oposição consentida (MDB).
Portanto, as “liberdades preservadas” eram seletivas, funcionavam apenas para quem não se opunha ao regime.
A verdade histórica não é uma escolha ideológica
Não cabe à História trabalhar com hipóteses enviesadas para justificar atrocidades. O Brasil não escapou de uma ditadura comunista, ela nunca esteve prestes a se instalar. O que o país viveu foi uma ditadura militar concreta, que durou 21 anos e destruiu vidas, instituições e futuros.
A única forma de não repetir o passado é encará-lo com honestidade, sem atalhos ideológicos, sem medo da verdade. O Brasil precisa de memória, justiça e educação histórica, não de mitos reconfortantes que maquiam a violência com a desculpa do “pior que não veio”.
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