Se a história do Brasil fosse justa, o nome de Leci Brandão já estaria nos livros didáticos, nos muros das escolas, nas placas das ruas. Mas, como ainda vivemos sob o peso do racismo estrutural, da desigualdade e da desmemória, cada gesto que honra a luta preta e popular é um ato de reparação histórica. E foi isso que fez a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), no dia 27 de junho de 2025, ao conceder o título de Doutora Honoris Causa à cantora, compositora, sambista e deputada Leci Brandão.
Essa não é só uma homenagem simbólica. É uma celebração da resistência que canta, educa e luta.
Uma doutora forjada no chão do povo.
Leci é filha de Ogum, do samba, da favela, do rádio, das escolas de samba, dos movimentos negros, das rodas de conversa e de axé. Sua universidade foi a vida, seu diploma é a luta, sua cátedra é o povo.
Com mais de 40 anos de carreira artística e mais de uma década como deputada estadual em São Paulo, Leci nunca se calou diante das injustiças. Foi a primeira mulher negra a integrar a ala de compositores da Mangueira. Foi também uma das primeiras artistas a colocar o combate ao racismo no centro das suas canções.
Sua música é política. Seu mandato é poesia. Sua presença é um grito de sobrevivência e de esperança.
Voz que virou lei.
Na Assembleia Legislativa de São Paulo, Leci não foi apenas presença: foi transformação. Apresentou e aprovou leis que promovem a igualdade racial, que reconhecem religiões de matriz africana, que garantem direitos às mulheres negras, à população LGBTQIAPN+ e aos povos tradicionais. É autora da Lei 17.389/21, que criou o “Julho das Pretas” no calendário oficial do estado um mês inteiro dedicado à luta das mulheres negras.
Foi também protagonista em ações de valorização da cultura popular, educação antirracista e preservação da memória negra.
Leci não se acomodou na fama. Ela transformou o microfone em megafone da favela, do terreiro, do quilombo, da sala de aula.
Um título coletivo, um orgulho nacional.
Ao receber o título de Doutora Honoris Causa, Leci afirmou com a generosidade de quem nunca andou sozinha:
“Esse título não é só meu. É do povo preto, das mulheres, da comunidade LGBTQIAPN+, do samba, da periferia e de todos que sonham e lutam por um Brasil mais justo.”
E ela tem razão. Quando uma mulher preta vence, não vence sozinha arrasta junto um povo inteiro.
Esse reconhecimento é um afago na alma dos que sonham, dos que resistem, dos que constroem um Brasil onde as vozes silenciadas tenham palco, púlpito, poder e diploma.
O Brasil que a Leci canta é o Brasil que a gente quer viver.
Em tempos de retrocesso, racismo, censura e violência institucional, Leci Brandão é farol. É a prova viva de que a arte pode educar, que a política pode ser instrumento de cuidado e que a cultura preta não apenas resiste ela transforma.
Leci é a cara da universidade que a gente quer: preta, popular, de axé, com samba, com quilombo, com saberes diversos. Que reconhece as mestras e mestres da vida como doutores do povo.
Parabéns, Doutora Leci Brandão.
Você não apenas recebeu um título você reafirmou que lugar de mulher preta é onde ela quiser.
E o Brasil, ainda que lentamente, vai aprendendo com você.
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