Até Quando o Estado Vai Confundir Preto com Suspeito?
A gente tá vivendo tempos onde o absurdo virou rotina. E mais uma vez, o Brasil amanhece de luto com o sangue preto escorrendo no asfalto, sangue que o Estado insiste em derramar como se fosse descartável.
Na última sexta-feira, dia 4 de julho, Guilherme Dias Santos Ferreira, de apenas 26 anos, voltava pra casa depois de mais um dia de trabalho como marceneiro. Tava com fome, cansado, com uma marmita nas mãos, um livro na mochila e o corpo correndo pra pegar o ônibus. Mas não chegou. Um tiro na cabeça interrompeu seus sonhos. Quem apertou o gatilho? Um policial militar. Quem morreu? Um homem preto.
A justificativa é a mesma de sempre: “confundiu com um suspeito”. O policial foi preso em flagrante, mas bastaram R$ 5.600 de fiança e ele já tá solto. Já a família de Guilherme, essa nunca mais vai dormir em paz.
Quando a pele preta vira alvo oficial.
Esse crime é mais do que um erro. É o reflexo direto de um racismo estrutural que transforma todo jovem preto em ameaça. É o mesmo racismo que grita nos ambientes de trabalho, como no caso do auxiliar de serviços gerais em Canoas, chamado de “macaco” por um supervisor na frente de colegas, incluindo outros homens negros. A dor foi tanta que ele pediu demissão. Conseguiu uma indenização de R$ 60 mil, mas a cicatriz emocional não tem valor que pague.
Esses casos não são isolados. Eles são o sistema operando exatamente como foi planejado: criminalizando corpos pretos, negando humanidade, e premiando quem agride ou mata.
E a gente precisa dizer com todas as letras: isso não é acidente. É projeto.
O que mais falta pra entender que isso é inadmissível?
A cada novo nome que se junta à lista de vítimas da violência racial, Guilherme, Genivaldo, Ágatha, João Pedro, Marielle, Herus, o que fica é o silêncio cúmplice de um Estado que age com dois pesos e duas medidas. Se fosse um jovem branco, de classe média, correndo pra pegar o ônibus, o desfecho seria outro.
Não há mais espaço pra fingir surpresa. Há espaço pra justiça, responsabilização e reparação. E isso precisa ser agora.
Reparação não é discurso, é compromisso com a vida
O povo preto não quer mais flores, quer futuro. Não quer mais desculpa, quer justiça. Já passou da hora de reconhecer que a dívida histórica com os negros neste país não é simbólica: é social, econômica, psicológica e institucional. E tem matado todos os dias.
Reparar é transformar políticas públicas, é encarar o racismo institucional de frente, é punir com rigor quem mata preto “por engano”. Reparar é garantir trabalho digno, educação antirracista, saúde com equidade e segurança sem genocídio.
Guilherme não era ameaça. Era trabalhador. Era um de nós.
A revolta que sentimos não vai se apagar. E enquanto os culpados continuarem impunes, nós vamos continuar gritando. Porque cada jovem preto que morre é uma ferida aberta na democracia. E não há democracia onde o povo preto vive com medo de voltar pra casa.
Esse país deve muito ao nosso povo. E não vamos mais aceitar que o preço seja a nossa vida.
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