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Domingo, 21 de Junho de 2026
Artigo: “Sob o Céu das Estrelas e do Milho:

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Artigo: “Sob o Céu das Estrelas e do Milho:

Festa Junina, Povos Indígenas e Periferias na Mesma Fogueira”

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Artigo: “Sob o Céu das Estrelas e do Milho: Festa Junina, Povos Indígenas e Periferias na Mesma Fogueira”

As bandeirinhas tremulam ao som do forró. O milho estala nas panelas. Há fogueira, dança e quentão. Mas por trás da tradicional festa junina que aquece os corações brasileiros, existe uma constelação de histórias enterradas como sementes na terra: são os ritos, os alimentos, as danças e os saberes dos povos originários, que ainda hoje alimentam, silenciosamente, as celebrações de junho. O que este artigo propõe não é apenas uma homenagem é um reposicionamento radical do olhar. A festa junina, como a conhecemos, não nasceu nos salões paroquiais. Ela brotou da terra.

O céu é indígena

Muito antes das quadrilhas e dos santos europeus, os povos indígenas do Brasil já celebravam o solstício de inverno. Era um momento de recolhimento, de escuta do silêncio da terra, mas também de renovação. Os Xerentes, os Tarairiú, os Wajãpi, os Kaingang, os Tikuna e tantos outros interpretavam o céu com precisão milenar. A aparição das Plêiades chamadas de “sete-estrelo” anunciava o tempo de plantar, colher, dançar e agradecer. Entre os Kaiowá e Ñandeva, por exemplo, o milho branco (avatí moroti) era celebrado com cantos e rituais para agradar Jakaira, o deus do milho, e garantir a fartura.

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Não é exagero dizer que, ao observarmos os céus de junho, estamos seguindo as pegadas desses povos. E quando dançamos ao redor do fogo, reproduzimos ainda que inconscientemente gestos antigos como o ritual Kiki dos Kaingang, ou o Akíri-dóge dos Enauenê-Nauê, onde se pula sobre a fogueira para abençoar o tempo que virá.

O milho, a mandioca e a pipoca sabem da história

O cardápio junino é quase um altar aos alimentos indígenas. Mandioca, milho, pinhão, amendoim: todos cultivados, domesticados e ritualizados muito antes da chegada dos colonizadores. O milho é, talvez, o símbolo máximo dessa história. É comida, é cosmologia, é resistência. Dos astecas aos guarani, do beiju ao cuscuz, a espiga é sagrada. Seu plantio segue as fases da lua; sua colheita, um ato espiritual.

A pipoca, por sua vez, tem lendas que a envolvem como espírito explosivo. É comida de ritual, usada em adornos cerimoniais e, no Brasil, ressignificada nos banhos de Obaluaiê como deburú — união de heranças indígenas e afro-brasileiras. A mandioca, rainha das roças e casas de farinha, carrega o nome de suas muitas línguas: yuca, manioc, aipim, macaxeira. Sua pluralidade é sua ancestralidade viva.

Fogueira e resistência: onde o povo caipira encontra o povo periférico

A cultura caipira muitas vezes usada como caricatura nas festas juninas é, na verdade, fruto do cruzamento entre indígenas e colonos. Como aponta Carlos Rodrigues Brandão, o caipira é o guardião de saberes agrícolas, fitoterápicos e culinários herdados dos povos originários. A quadrilha e a catira, as danças com bastões (como o Maculelê e a dança do bambu), têm matriz plural, mas com núcleo indígena.

E é aqui que os povos periféricos entram nessa fogueira simbólica. A periferia brasileira, majoritariamente negra e mestiça, carrega no corpo e no prato essas heranças. Quando uma comunidade da zona leste de São Paulo monta seu arraiá na pracinha, está reafirmando uma linhagem: celebra a ancestralidade indígena e negra com pipoca, fogueira e forró. Faz da escassez uma fartura coletiva. Reinventa o sagrado.

Festa junina como território de disputa simbólica

A festa junina é um campo de disputa. Ao longo dos séculos, o cristianismo institucional usurpou ritos de fertilidade, colheita e alinhamento cósmico. A Igreja acendeu suas fogueiras onde antes já se acendiam brasas para conversar com os deuses da mandioca. Nossos santos juninos cristãos pisam em solo indígena e raramente reconhecem isso.

Reverter esse apagamento é tarefa urgente. Reconhecer a festa junina como fenômeno cultural de origem indígena e popular é, ao mesmo tempo, um gesto pedagógico e político. Um ato de justiça e de reencantamento.

O que celebramos, afinal?

Quando, nas quebradas, escolas e roças, dançamos em roda e olhamos para o céu de junho, estamos reatando uma linhagem interrompida pela violência colonial. Cada prato de curau, cada canjica, cada estalo de fogos, cada oração ao redor da fogueira é uma forma de ancestralidade ativa.

Celebramos mais do que santos. Celebramos a terra. Celebramos a persistência dos povos que sobreviveram ao apagamento. Celebramos uma cultura que, mesmo invisibilizada, nunca deixou de brilhar como as Plêiades no céu de junho.

Que a festa continue. Mas que se saiba de onde ela vem.

FONTE/CRÉDITOS: Aiyra Tomé | Omilogã/ Thiago Trein
FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): Thiago Trein
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Thiago Trein

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