Duas imagens dominaram o imaginário coletivo brasileiro nesta semana que passou. Em um parque de São Paulo, mulheres reunidas com seus bebês reborn — bonecas hiper-realistas — pleiteavam maternidades e creches para suas criações de silicone. Em outro ponto do país, no Rio de Janeiro, uma mulher negra, em prantos, pedia desculpas publicamente pelo filho que havia assaltado um ônibus na Avenida Brasil. Duas cenas, dois retratos de um país marcado pela desigualdade estrutural.
A segunda imagem, da mãe negra desesperada, viralizou. A sua dor, amplamente exposta, escancarou uma ferida antiga e profunda da sociedade brasileira: a criminalização das maternidades negras. A fala do ex-governador do Rio, Sérgio Cabral, em 2007, ainda ecoa com perversidade. “Tem tudo a ver com violência... Na Rocinha, é padrão Zâmbia. Gabão. Isso é uma fábrica de produzir marginais.” A associação entre maternidade negra, pobreza e criminalidade não é apenas cruel. É racista.
Mas quem, de fato, são as "fábricas de produzir marginais"? Quem sustenta este país com trabalho invisível, maternidades precoces, improviso e resiliência? A resposta está nas palavras da poeta e ancestral paulista Tula Pilar, que ensinava os filhos a sobreviver no improviso: “Se acaba o gás, a gente junta dois tijolos e faz um fogão a lenha... Ensinei aos meus filhos... a não perceberem a miséria e fome próxima de nós.”
Enquanto algumas mulheres adultas reivindicam espaços públicos para brincar de boneca, outras lutam — diariamente — pela sobrevivência real de seus filhos. As creches que faltam às mães negras, as políticas públicas que nunca chegaram, as adoções que não acontecem porque crianças negras não são desejadas.
E ainda somos obrigados a assistir, impassíveis, à comoção seletiva da sociedade. Mães pretas cujos filhos são vítimas do Estado, da violência policial, do encarceramento em massa, não ganham manchetes compassivas — apenas o escárnio, a humilhação e a culpa transmitida ao vivo.
A psicóloga Jeane Tavares, que dirige a página “Saúde Mental da População Negra”, resumiu com precisão: “Sobre brincar de boneca hiper realista na vida adulta. Se aparecerem mulheres negras adultas com dinheiro, tempo livre e disposição pra brincar de ser mãe de boneca, marquem a minha página.”
Porque a verdade é que as mulheres negras no Brasil não brincam de ser mães. Elas são. São mães de filhos vivos, filhos mortos, filhos encarcerados. Mães que não têm tempo de sonhar, pois precisam improvisar. Como Eliene Vieira, uma das autoras do recém-lançado livro Guerreiras pelo Desencarceramento, organizado por Erivelto Melquiades, Késsia Gomes, Lucas Matos e Nina Barroim, que afirmou: “Eu olhava meu filho preso e sentia vontade de colocá-lo novamente no útero, para sair com ele dali.”
Saidiya Hartman, no impactante Perder a Mãe, nos lembra que todos nós, descendentes da diáspora, já nascemos órfãos. Atravessados pela escravidão, perdemos a noção de país, de parentesco, de identidade. Mas ainda assim, somos cobrados como se tudo nos tivesse sido dado.
No Brasil, o direito de brincar não é universal. E o direito à maternidade digna, ainda menos. Em pleno 2025, é preciso escolher que imagens queremos ver — e mais importante: que imagens queremos transformar em política. Que neste Dia das Mães (2025), não celebremos apenas flores, mas justiça. Que não ofereçamos apenas desculpas, mas reparações.

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